São inúmeros os autores que estudaram diários. Roberto Schwarz, por exemplo, no livro
Duas meninas, escreve um ensaio sobre
Minha vida de menina, o diário escrito por Helena Morley. Giulio Carlo Argan, no livro
A arte moderna da Europa - De Hogarth a Picasso, se detém sobre o diário de Paul Klee, e a historiadora Maria Helena Machado analisa
Diário íntimo, de José Vieira Couto de Magalhães. Há também autores que se dedicam a estudar o gênero propriamente dito, desenvolvendo teorias, apresentando suas modalidades (diário de bordo, de guerra, de viagem, íntimo, eletrônico) e resgatando a sua história na literatura. Por isso, escolhemos apresentar dois autores que contribuem de formas muito diferentes para a reflexão deste gênero: Philippe Lejeune e Peter Gay.
O estudioso francês Philippe Lejeune se dedica há mais de trinta anos à pesquisa de variadas expressões escritas do
eu. Ao escolher a autobiografia como ponto de partida e principal objeto de seu estudo, Lejeune transita entre a tradição das confissões, a epistolografia e o diário.
Segundo Lejeune, a principal marca de um diário é a escrita cotidiana, cujo registro ou entrada é a data. A regularidade transforma os escritos em sequências que dão efeito de continuidade. São duas as balizas principais de um diário: fragmentação e repetição. O que se lê, como resultado, é a própria construção da memória: "escrever uma entrada pressupõe fazer uma triagem do vivido e organizá-lo segundo eixos, ou seja, dar-lhe uma `identidade narrativa' que tornará minha vida memoriável".
(1)
O historiador americano Peter Gay é autor de um estudo monumental,
A experiência burguesa: da rainha Vitória a Freud, uma análise do comportamento burguês no século xix. Na obra
Coração desvelado, quarto volume da coleção, ele procura compreender o porquê da imensa produção de memórias, autobiografias, autorretratos e correspondências íntimas ao longo do período sobre o qual se atém.
No caso dos diários, boa parte da explicação se concentra num "fenômeno cultural moderno: a privacidade".
(2) Ainda que criado antes do século xix, foi neste período que a produção dos registros se intensificou, passando a atender a vários propósitos: por recomendação médica, para registrar eventos correntes, evitar que o passado seja esquecido ou afastar a solidão. E ainda que muitas vezes o homem não seja capaz de confessar seus desejos mais íntimos, o diarista não consegue escapar de sua história. "Precisamente como seus parentes, as autobiografias, que têm maior coerência, os diários são sempre verdadeiros - tanto os evasivos e mentirosos como os demais. Direta ou indiretamente, todos testemunham os desejos e as ansiedades, os prazeres e os traumas, a discórdia interior descoberta ao escrever, provocando às vezes uma luta íntima".
(3)
Seja o diário a própria inscrição da memória, ou o registro dos constantes conflitos daquele que escreve, sua leitura pode provocar tanto o conhecimento do outro quanto a descoberta de um modo de olhar para si.